A igreja e a AIDS: Como fazer de conta que o problema não existe.

“O papa João Paulo II escreveu na semana passada aos bispos dos Estados Unidos expressando dor e preocupação com o volume de casos de má conduta sexual, e anunciou uma comissão de peritos para examinar o problema”.

E conclui seu comentário informativo: “No ano passado um sacerdote aidético na Inglaterra acusou a moral vaticana de induzir os padres ao homossexualismo: ‘Como é sempre suspeita a proximidade de um padre com uma mulher, muitos preferem—ou são coagidos a—manter relacionamentos masculinos’, disse ele. Isso levou Janer Cristaldo, da Folha de São Paulo a escrever: ‘A grande ré não é a sociedade, mas uma Igreja que nega algo inerente ao ser humano’”. (Op. Cit., pág. 12).

Da mencionada edição de Notícias da Semana podem-se reproduzir as cláusulas em destaque e intertítulos da matéria de página inteira de O Estado de São Paulo, “A AIDS Chega à igreja” (autor: Roldão Arruda—data não indicada no NS), para ter-se pequena mostra da grande dimensão e complexidade do problema: “Imposição do celibato faz com que o assunto seja tratado como um tabu”; “Versão é de que vírus foi adquirido em transfusão”; “Morte de religioso é atribuída a meningite”; “Fiéis acham desrespeitoso tocar no assunto”; “Arcebispo de São Paulo prefere não se manifestar sobre a questão”. E a chamada “Leia na edição de amanhã”, promete: “Entrevista com o bispo d. Angélico Sândalo sobre Aids e padres doentes, e o depoimento de um ex-seminarista que convive com o vírus”.

É chocante saber que aqueles que estão à frente do rebanho do Senhor, tendo a missão de ajudar as pessoas a se prepararem para a eternidade e a trilharem a senda da santificação, se envolvam tão freqüentemente com pecados sexuais que, entre outras conseqüências, lhes acarretam esse tremendo flagelo da AIDS. Mas a Bíblia já dizia com respeito aos profetas de outrora que eles eram sujeitos às mesmas paixões que nós. Resta-nos, pois, antes que meramente criticá-los e condená-los, refletir sobre estas outras palavras bíblicas do apóstolo Paulo: “Quem está de pé, cuide que não caia”.

Obs.: O texto da entrevista com Eleny Vassão Cavalcante tem por base a entrevista concedida a Samuel Ferreira, de Alerta Geral, de João Pinheiro, Minas Gerais.

Editor do Artigo: Prof. Azenilto G. Brito, ligeiramente modificado do artigo publicado em Correio Cristão.

Adendo

Notícia condensada da edição em língua italiana do CNN (site http://www.cnn.com):

Freiras Acusam Sacerdotes e Missionários Católicos de Abusos Sexuais

Cidade do Vaticano (CNN) [21/3/01]—O porta-voz da Santa Sé, Joaquin Navarro-Valls, confirmou a existência de “casos de abuso sexual da parte de sacerdotes ou missionários”, denunciados recentemente, como também no passado, por vítimas de tais situações.
Um relatório entregue ao Vaticano em 1995 falava de abuso sexual de parte de sacerdotes em relacionamentos com freiras. Navarro afirmou que a Santa Sé está se ocupando com o caso, mas minimizou a situação confirmando que os casos estão “restritos a uma área geográfica limitada”.
Alguns dias antes o semanário americano National Catholic Reporter, citando de duas freiras americanas, havia revelado a existência de um relatório entregue em 1995 ao Vaticano, no qual se relata casos de religiosas que sofreram abusos sexuais, às vezes violentos, de sacerdotes e missionários em que—em alguns casos—eram até forçadas a abortar.
“O problema—declarou Navarro-Valls—é de nosso conhecimento e o Vaticano já está se ocupando disso em colaboração com os bispos, e com a União Superior Geral (USG), e a União Superior Geral Internacional (USGI) [entidades da mais alta hierarquia católica]. Busca-se agir por dois caminhos: a formação das pessoas e, naturalmente, a solução de cada caso. Alguns fatos como estes não devem fazer-nos esquecer da fidelidade muitas vezes heróica da grande maioria dos religiosos e sacerdotes”.
A autora do relatório—publicado no periódico americano—é a religiosa Maria O’Donohue, médica e missionária por muitos anos. A religiosa, que passou longo período em missões como médica, lembra, entre outros, “o caso de um sacerdote que forçou uma freira a abortar, vindo com isso a morrer, e que celebrou oficialmente a missa [na cerimônia fúnebre]”.
No mesmo documento, conclui-se que as freiras são o centro de grandes atenções de parte dos “sacerdotes e figuras destacadas da hierarquia eclesiástica que abusam de sua autoridade”. Muitas vezes as atenções dos clérigos se dirigem às freiras, sobretudo na África, para evitar o perigo de contrair a Aids de prostitutas. Finalmente, do relatório parece emergir a conclusão de que essas ocorrências quase exclusivamente se restringem à África—conquanto não haja confirmação oficial nesse sentido—mas a religiosa O’Donohue cita situações semelhantes em outras parte dos mundo”.

                                (Traduzido e adaptado por Azenilto G. Brito).

AIDS e Abuso de Crianças Por Sacerdotes Alarmam Liderança Católica

Por JUDY L. THOMAS – The Kansas City Star

Centenas de sacerdotes católicos estão morrendo por todos os Estados Unidos de doenças relacionadas com a AIDS e centenas de outros são portadores do vírus HIV, segundo longa matéria de Judy L. Thomas no jornal The Kansas City Star. A informação foi transcrita num website especial de uma instituição chamada SNAP, sigla de “Survivors Network of Those Abused by Priests” [Rede de Sobreviventes Daqueles que Foram Abusados Por Sacerdotes] que traz uma série de depoimentos chocantes de crianças e jovens assim afetados, bem como testemunhos da revolta de pais e familiares a respeito da crítica situação e do crescente problema.

Diz a matéria do jornal de Kansas ser difícil determinar o número de mortes por AIDS entre esses religiosos mas, ao que parece, a média dessas morte equivale a quatro vezes mais do que a média nacional de vitimados fatais pela AIDS. Esses dados foram computados por pesquisas do próprio jornal e de especialistas médicos e sacerdotes católicos. “Somente em Missouri e Kansas, pelo menos 16 sacerdotes e dois irmãos de ordem religiosa morreram de AIDS desde o início de 1987”, diz a reportagem, prosseguindo com a informação de que tais mortes “causam tanta preocupação à Igreja que a maioria das dioceses e ordens religiosas requerem agora teste de HIV negativo para aceitar candidatos ao sacerdócio, antes de sua ordenação”.

Segundo pesquisa feita com leigos e religiosos católicos, esse assunto é considerado chocante porque muitas das vítimas de AIDS entre os sacerdotes contraíram a doença por práticas homossexuais, que são condenadas pela doutrina da Igreja. Contudo, muitos sacerdotes elogiaram a Igreja por revelar compaixão para com os vitimados. “Com freqüência a Igreja cobre as despesas médicas e arranja um lugar para que vivam e deles cuida até a morte”. Outros sacerdotes, porém, se queixam de que a Igreja falha em não oferecer educação sexual apropriada que impeça que ocorra tal infecção, em primeiro lugar, prossegue o jornal.

“A sexualidade ainda precisa ser discutida e abordada”, declarou o Rev. Dennis Rausch, um sacerdote com AIDS que dirige um programa de ministério em favor de aidéticos na Arquidiocese de Miami. “Tenho tentado entrar no seminário aqui pelos últimos anos para conduzir um curso de conscientização para os rapazes, de modo que quando saírem, pelo menos tenham conhecimento”, diz ele.

Muitos sacerdotes e especialistas em comportamento alegam que a adesão da igreja a uma doutrina sobre virtudes do celibato, originárias no século 12, e seus ensinos a respeito do homossexualismo contribuíram para a difusão da AIDS dentro do clero”. Essa negligência afetou os jovens de até 14 anos de idade que entram no seminário nos anos 60 e 70 sem devida educação quanto à realidade do mundo sexual e suas tentações.

“Ademais, ao tratar os atos homossexuais como uma abominação e a quebra do celibato como algo vergonhoso, a Igreja assustou os sacerdotes levando-os ao silêncio”, alguns dizem. “Creio que isso denuncia a falha de parte da Igreja”, declara o Bispo Auxiliar Thomas Gumbleton, da Arquidiocese de Detroit. “Os sacerdotes gays e heterosexuais não sabiam como lidar com a sua sexualidade, seu impulso sexual. Deste modo, trataram da questão em maneiras que não eram saudáveis. Como ser celibatário e gay ao mesmo tempo, e como ser celibatário e heterossexual ao mesmo tempo é algo sobre que nunca foram realmente ensinados. E esse foi um erro de grandes proporções”.

Numa entrevista sobre o assunto, o Bispo Raymond J. Boland da Diocese de Kansas City-St. Joseph disse que as mortes por AIDS de sacerdotes revelam que estes também são seres humanos. “Conquanto muito lamentemos isso, demonstra que a natureza humana é a natureza humana”, afirmou Boland. Ele acredita que atualmente a liderança da Igreja está realizando um melhor trabalho preventivo. “Em todos os seminários há pessoas que são conselheiros treinados”.

A Igreja Católica não está só neste problema. Clérigos de outras denominações também lutam com questões de sexualidade e há relatos de mortes por AIDS nesse meio. Robert Goss, um ex-sacerdote jesuíta que é atualmente Chefe do Departamento de Estudos Religiosos da Webster University em St. Louis, declara que há gays no sacerdócio e nem todos são celibatários. “Ambas estas questões são temas explosivos que os superiores e bispos não abordam em público”. O próprio Goss deixou o sacerdócio após 11 anos quando se apaixonou por um seminarista que estava prestes a ser ordenado. Os dois tornaram-se parceiros por longo tempo, até que o ex-seminarista morreu de AIDS em 1992.

Prossegue ainda o Day Star: “A igreja não tem abandonado seus sacerdotes portadores de HIV ou AIDS, e muitas vezes reconhece publicamente suas realizações. Há sacerdotes que são gays, há sacerdotes com AIDS, há sacerdotes que são diferentes e que realizam um ministério maravilhoso”, declarou o Rev. Jim Nickel, diretor de cuidado pastoral para os Ministérios Damien, em Washington, D.C.

Em muitos certificados de óbito, informa o jornal, a causa mortis não é apresentada de modo realista e assim o número exato dos que morrem como vítimas da AIDS é realmente acobertado. No início dos anos 90, especialistas que aconselhavam e tratavam sacerdotes aidéticos estimavam que cerca de 200 nos Estados Unidos haviam morrido de AIDS ou tinham contraído a doença. Agora, os que trabalham com sacerdotes infectados dizem que estes dados são por demais conservadores, ou seja, o número é muito maior. “Estamos falando de várias centenas”, comentou o Rev. Jon Fuller, sacerdote jesuíta e médico que serve como diretor-assistente do Centro Médico de Boston, em seu programa de Atendimento a aidéticos.

Por pesquisas empreendidas pelo próprio jornal, examinando registros de falecimento de sacerdotes na Califórnia, Missouri e Massachussetts em 1995, descobriu-se uma média de 7,3 sacerdotes para 10.000 habitantes, enquanto na população em geral nesses três estados é de 1,8 para 10.000. Na Inglaterra, 21 sacerdotes católicos foram presos por abuso de crianças entre 1995 e 1999, e dois arcebispos estiveram envolvidos em controvérsias quanto ao modo de lidar com problemas de sacerdotes pedófilos, informa a CNN. E prossegue relatando que a liderança católica local agora exige “certidão criminal negativa” de candidatos a trabalhar na Igreja, incluindo sacerdotes.

A.W. Richard Sipe, ex-sacerdote americano que passou mais de 30 anos estudando questões ligadas a sexualidade na Igreja pensa que cerca de 750 sacerdotes por todo o país (EUA) morreram de doenças produzidas pela AIDS. Isso se traduziria num nível de oito vezes o da população em geral. Já Joseph Barone, psiquiatra de Nova Jersey, também especialista em AIDS, coloca esse número em 1.000, quase 11 vezes o índice da população em geral.

Barone conduziu testes de 1983 a 1993 em Roma, Itália e submeteu seminaristas ali a testes de HIV. Após sete anos de estudos e de testes com dezenas de seminaristas Barone concluiu que 1 em 12 eram soropositivos. Quando deixou Roma, ele havia tratado 80 sacerdotes com AIDS. A maioria era homossexual ativo. “A tragédia”, diz Barone, “é que não percebem o que estão fazendo não só para si próprios, mas para outros, devido ao índice exponencial de transmissão”.

Outro pesquisador que estudou extensamente a questão da AIDS na Igreja é o Rev. Thomas Crangle, sacerdote franciscano da ordem dos Capuchinos em Passaic, N.J. Em 1990 Crangle conduziu uma pesquisa por correio com centenas de sacerdotes escolhidos ao acaso. Ele disse que de 500 pesquisas que enviou, 398 foram devolvidas respondidas, e 45 por cento dos que responderam confessaram voluntariamente serem gays, e 92—quase um quarto—declararam-se portadores do vírus da AIDS. “Fiquei surpreso”, disse Crangle. “Sabia que havia problemas, mas não dessa magnitude”.

Charlie Isola, um assistente social e psicoterapeuta de Nova York disse que todos os sacerdotes com AIDS que ele tratou são homens gays em seus 40 a 60 e poucos anos.  “Alguns deles tiveram contato sexual no seminário e prosseguiram após a ordenação, e alguns dos homens tiveram seu primeiro contato sexual com outros sacerdotes ou leigos após terem sido ordenados”, contou Isola. Mais adiante na reportagem, ele comenta: “Em minha experiência, a grande maioria dos sacerdotes que fazem o voto [sacerdotal] não está suficientemente desenvolvida psico-sexualmente. Durante o seminário, perguntas sobre homossexualismo ou sentimentos sexuais são geralmente tratados por instrutores que lhes dizem: ‘Você reza missa todo dia e cumpre o rosário, o resto tomará conta de si mesmo’. Só que para muitos isso simplesmente não funciona”.

Vários sacerdotes, respondendo confidencialmente à pesquisa do jornal, ofereceram comentários como os seguintes: “Penso que o problema real não é o HIV/AIDS, mas a desonestidade básica da Igreja com respeito a toda a sexualidade”, escreveu um sacerdote gay. “Os sacerdotes e outros têm que disfarçar e ocultar sua sexualidade de todas as maneiras possíveis e, logicamente, isso conduz a expressão sexual que não é saudável”.

Alguns se queixam de que a Igreja foi advertida há 30 anos de que tal problema se poderia desenvolver, mas deixou de tomar medidas adequadas para prevenir isso. Em 1983 a Comissão Sobre Sacerdócio e Ministério da Conferência Nacional dos Bispos Católicos dos Estados Unidos emitiu um livreto de 59 páginas chamado “Sexualidade Humana e o Sacerdócio Ordenado”. O seu propósito era propiciar “uma base estruturada e objetiva para sacerdotes e bispos refletirem pessoalmente e falarem a respeito de algumas importantes realidades—realidades que doutro modo não poderiam ser examinadas ou tratadas de forma a ser de auxílio”. Entre os tópicos abordados havia o celibato, solidão e relacionamentos. Três páginas tratavam especificamente do homossexualismo.

Um dos sacerdotes que responderam à pesquisa do The Kansas City Star manifestou-se a respeito de dita publicação como sendo “um dos documentos mais negligenciados nos anos recentes”.

(Traduzido e condensado por Azenilto G. Brito).
Solicite os artigos que lhe interessarem pelos respectivos números ao e-mail azenilto@yahoo.com que lhe serão encaminhados eletronicamente. É um serviço grátis pelo qual são propiciados subsídios de materiais relevantes à nossa comunidade de fé para estudo, análise e reflexão, visando ao progresso espiritual do pesquisador como um cristão bem informado e amadurecido. (Obs.: A configuração dos artigos em geral é para editor de texto Word for Windows 6.0/95, com opções no tamanho “Carta”).
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