Dualismo e holismo no exame da consciência após a morte

Samuele Bacchiocchi

A crença na imortalidade da alma deriva de um entendimento dualístico da composição da natureza humana. Historicamente, a vasta maioria dos cristãos tem crido e ainda crê que a natureza humana é dualística, consistindo de um corpo material e mortal, e uma alma imaterial, imortal. Por ocasião da morte, a alma se desligaria do corpo e sobreviveria num estado desincorporado, seja no gozo do paraíso ou no tormento do inferno. Isso significa que a primeira etapa em analisar de uma perspectiva bíblica a crença popular na vida desincorporada após a morte é estudar o que a Bíblia nos ensina com respeito à composição da natureza humana. Este será o enfoque e nossa atenção neste estudo.
Até recentemente apenas um punhado de denominações evangélicas, nem sempre consideradas cristãs, ensinavam e pregavam que a natureza humana é holística, consistindo de um ser indivisível, sendo o corpo, alma, e espírito somente características da mesma pessoa. A alma é o princípio animado do corpo manifesto na consciência, pensamento—os aspectos da vida de um indivíduo. Por ocasião da morte, o corpo e alma não se separam, mas simplesmente cessam de existir e descansam de modo inconsciente na sepultura até a ressurreição. Nesse tempo, a pessoa mortal integral será ressuscitada, seja para a vida eterna ou para a morte eterna.

Católicos e protestantes têm historicamente rejeitado a visão holística da natureza do homem e rotulado como “sectária” as poucas igrejas observadoras do sábado que mantêm tal ponto de vista. Mas comprazo-me em relatar que uma mudança radical vem ocorrendo durante os últimos 50 anos no pensamento da comunidade de eruditos.

Destacados eruditos católicos e protestantes têm reexaminado o ponto de vista bíblico da natureza do homem e têm concluído que não existe na Bíblia qualquer dicotomia entre um corpo mortal e uma alma imortal que se separa quando da morte. Tanto o corpo quanto a alma são unidades indivisíveis que deixam de existir ao tempo da morte, até a ressurreição. Em resumo, o veredito da erudição moderna é de que o ponto de vista holístico é bíblico, enquanto o entendimento dualístico popular é antibíblico, derivado que é do dualismo platônico, antes que das Escrituras.

Esses fatos têm suscitado sérias preocupações de parte daqueles que vêem seu entendimento dualístico da natureza humana severamente desafiado e minado. De fato, alguns líderes evangélicos têm reagido vigorosamente, adotando em alguns casos táticas ameaçadoras.

Oscar Cullmann, renomado teólogo suíço, por exemplo, viu-se ferrenhamente atacado por muitos que faziam fortes objeções a seu livro Immortality of the Soul or Resurrection of the Dead? [Imortalidade da alma ou ressurreição dos mortos?] Ele escreveu: “Nenhuma de minhas publicações provocou tal entusiasmo ou tão violenta hostilidade”. De fato, a crítica tornou-se tão intensa e tantos revelaram-se ofendidos com suas declarações que ele decidiu manter-se deliberadamente em silêncio por um tempo. Devo acrescentar que Cullmann não se deixou impressionar pelos ataque contra seu livro porque entende serem baseados, não em argumentos exegéticos, mas em considerações de ordem emocional, psicológica e sentimental.

O respeitado teólogo canadense Clark Pinnock menciona algumas das “táticas de pressão” usadas para desacreditar aqueles eruditos evangélicos que abandonaram o ponto de vista dualístico tradicional da natureza humana e sua doutrina relacionada de tormento eterno num inferno de fogo. Uma das táticas tem sido associar tais teólogos com liberais ou sectários, como os adventistas. Escreve Pinock: “Parece que um novo critério para a verdade foi descoberto, segundo o qual, se os adventistas ou os liberais mantêm algum ponto de vista, esse deve estar errado. Aparentemente, a defesa de uma verdade pode ser decidida por sua associação e não precisa ser testada por critérios públicos em debate aberto. Tal argumento, conquanto inútil em discussão inteligente, pode surtir efeito com os ignorantes que são ludibriados por tal retórica”.

A despeito das táticas de pressão, o ponto de vista holístico da natureza humana que nega a imortalidade natural da alma e, conseqüentemente, o tormento eterno dos perdidos no inferno, está ganhando terreno entre os evangélicos. Seu endosso público por John R. W. Stott, teólogo britânico altamente respeitado e pregador popular, está certamente encorajando essa tendência. “Numa deliciosa peça de ironia”, escreve Pinnock, “isto está criando uma medida de crédito por associação, contrariando as táticas mesmas usadas contra ela. Tem-se tornado quase impossível alegar que somente heréticos e quase-heréticos [como os adventistas do sétimo dia] mantêm essa posição, embora esteja seguro de que alguns descartarão a ortodoxia de Stott precisamente sobre esse terreno”.

O próprio Stott expressa ansiedade quanto às conseqüências divisivas de seus novos pontos de vista na comunidade evangélica onde é um renomado líder. Ele escreve: “Sinto-me hesitante em ter escrito essas coisas, em parte porque tenho grande respeito pela longa tradição que reivindica ser uma correta interpretação da Escritura, e não a ponho de parte levianamente, e em parte porque a unidade da comunidade evangélica mundial sempre significou muito para mim. Contudo, o assunto é por demais importante para ser suprimido, e estou-lhe grato (a David Edwards) por desafiar-me a declarar meu atual modo de pensar. Não dogmatizo a respeito da posição a que cheguei. Eu a mantenho tentativamente. Mas eu apelo a diálogo franco entre os evangélicos com base nas Escrituras”.

O apelo de Stott por um “diálogo franco entre evangélicos com base nas Escrituras” pode ser muito difícil, se não impossível, de materializar-se. A razão é simples. Os evangélicos são condicionados a seus ensinos denominacionais tradicionais, assim como o são os católicos-romanos e ortodoxos orientais. Em teoria, eles apelam à Sola Scriptura porém na prática os evangélicos muitas vezes interpretam as Escrituras de acordo com seus ensinos denominacionais tradicionais. Se novas pesquisas bíblicas desafiam suas doutrinas tradicionais, na maioria dos casos as igrejas evangélicas preferirão apegar-se à tradição antes que à Sola Scriptura. A diferença real entre evangélicos e católicos romanos é que os católicos dão grande destaque à autoridade normativa de sua tradição eclesiástica, enquanto as igrejas evangélicas não o fazem.

Ser um “evangélico” significa sustentar certas doutrinas tradicionais fundamentais sem questionamento. Quem quer que questione a validade bíblica de uma doutrina tradicional pode tornar-se suspeito de ser um “herege”. Numa importante conferência em 1989 para discutir o que significa ser um evangélico, sérias questões foram suscitadas quanto a se pessoas como John Stott ou Philip Hughes deveriam ser considerados tais, uma vez que adotaram o ponto de vista da imortalidade condicional e da aniquilação dos que não se salvarão. O voto para excluir tais teólogos apenas não se confirmou por pouco.

Por que os evangélicos são tão teimosos em recusar reconsiderar os ensinos bíblicos sobre a natureza e destino humanos? Afinal de contas, eles tomaram a liberdade de mudar outros ensinos tradicionais.

Talvez uma razão de sua insistência em conservar o ponto de vista dualístico é que isso causa impacto sobre muitas outras doutrinas. Fizemos notar anteriormente que o que os cristãos crêem sobre a composição da natureza humana determina em grande medida o que crêem sobre o destino humano. Abandonar o dualismo também provoca o abandono de todo um conjunto de doutrinas que resultam disso, especialmente a acariciada crença na consciência da vida após a morte. Isso pode se chamar “efeito dominó”. Se uma doutrina cai, várias outras cairão junto.
Para os leitores apreciarem a importância de uma correta compreensão do ponto de vista bíblico da natureza do homem, neste primeiro artigo desejamos comparar brevemente e contrastar as implicações práticas e doutrinárias do entendimento dualístico e holístico da natureza humana.

Implicações Práticas do Dualismo versus Holismo

O Ponto de Vista Dualístico da Vida

Os cristãos que mantêm o entendimento dualístico da natureza humana conceitualizam a vida presente dualisticamente. Encaram a vida espiritual da alma como mais importante do que a vida física do corpo. Historicamente, esse ponto de vista dualístico tem retratado os santos como pessoas que se dedicam primariamente à vita contemplativa (vida contemplativa), desligando-se da vita activa (vida secular). Uma vez que o cultivo da alma tem sido visto como mais importante do que cuidar do corpo, o bem-estar físico do corpo muitas vezes tem sido intencionalmente ignorado ou até suprimido.

Eu testemunhei essa mentalidade dualística durante os cinco anos que passei na Universidade Pontifícia Gregoriana de Roma, Itália. Muitas vezes vi alguns de meus colegas de classe, a maioria deles monges e sacerdotes católicos de todo o mundo, primeiro indo para a capela para cultivarem sua alma mediante oração e meditação, e daí indo até o bar ao final do corredor para intoxicar seus corpos tomando bebidas alcoólicas e fumando. Eles não viam conflito entre as duas atividades, porque, segundo sua mentalidade dualística, o que faziam com seus corpos não afetava a salvação de suas almas.

A mesma mentalidade dualística prevalece hoje no mundo protestante, onde a redenção é vastamente associada à salvação da alma, antes que ao cuidado do corpo. Muitos cristãos são culpados de divorciar o corpo humano de sua alma tornando a salvação uma experiência interna da alma, antes que uma transformação total da pessoa inteira.

Ouve-se constantemente o comentário em várias discussões de grupo de que participo compartilhando o que a Bíblia ensina sobre questões de estilo de vida, como a observância do sábado, vestuário e adornos, uso de bebidas alcoólicas, casamento, relações sexuais pré-matrimoniais: “Está dando muita importância a coisas de menor valor! Isso não é o evangelho. A salvação tem que ver com aceitar e professar a Cristo como nosso Salvador pessoal, e não com questões de estilo de vida”. Tais comentários refletem uma mentalidade dualística: Na medida em que as pessoas aceitam a Cristo com a mente, o que fazemos com nossos corpos de fato não importa.

A Visão Holística da Vida

Essa mentalidade dualística é abertamente rebatida na Bíblia, que nos ensina a glorificar a Deus não somente com nossa mente, mas também com nosso corpo, porque nosso corpo é “o templo do Espírito Santo” (1 Cor. 6:19) para ser apresentado como um “sacrifício vivo” a Deus (Rom. 12:1). Temos há muito reconhecido e enfatizado que o modo como tratamos nosso corpo reflete a condição espiritual de nossa alma, porque nossos corpos e almas são um. Se poluímos o corpo com fumo, drogas, alimentos prejudiciais ou estilo de vida intemperantes provocamos não só a poluição de nossos corpos, como também a poluição espiritual de nossas almas.

O desafio que os cristãos que mantêm o ponto de vista holístico da Bíblia enfrentam hoje é integrar tal ponto de vista mais plenamente a seus programas de ensino, pregação, instrução e assistência médica.

O ponto de vista bíblico da natureza humana nos desafia a preocupar-nos com a pessoa inteira. Isso significa que em nossa pregação e ensino, precisamos não só atender às necessidades espirituais da alma, mas também as necessidades físicas do corpo. Precisamos ensinar as pessoas não só a cultivar sua vida espiritual, como também cuidar de seus corpos físicos.

O evangelho não nos dá base para uma doutrina de redenção que salva a alma à parte do corpo ao qual pertence. A comissão evangélica não é salvar almas, mas pessoas inteiras. O que Deus juntou por ocasião da criação e redenção na cruz, nenhum cristão tem o direito de separar.

Na educação bíblica cristã o holismo significa que devemos ter por alvo o desenvolvimento dos aspectos mentais, físicos e espirituais da vida. Um bom programa de educação física deve ser considerado tão importante quanto o seu programa acadêmico e religioso.

Na medicina, o holismo bíblico significa que os médicos devem tratar a pessoa integral, incluindo a condição nutricional, espiritual, emocional e espiritual do paciente. O holismo bíblico nos desafia também a servir o mundo, e não evitá-lo.
Implicações Doutrinárias do Dualismo. As implicações doutrinárias do ponto de vista dualístico da naturezas humana são até mesmo alarmantes. Uma enorme quantidade de heresias que estão perturbando o mundo cristão hoje derivam do dualismo. Por exemplo, o dualismo deu lugar ao desenvolvimento do engano popular da vida consciente após a morte que se está espalhando hoje como fogo na palha, um engano que é promovido de forma bem sucedida pela sutil loucura do movimento da Nova Era e pela pesquisa de experiências de bem próximo da morte. Esta última tem, por seu turno, fomentado tais crenças como a intercessão dos santos, a oração pelos mortos, indulgências, purgatório, religação da alma quando da ressurreição, o tormento eterno do inferno, uma visão etérea do Paraíso onde almas glorificadas passarão a eternidade em eterna contemplação e meditação.

É-nos impossível calcular o impacto negativo dessas crenças enganosas sobre a fé e prática cristã. De um lado, essas crenças têm enfraquecido e obscurecido a expectativa da segunda vinda de Cristo. Se por ocasião da morte a alma do crente vai imediatamente para a bem-aventurança do Paraíso para estar com o Senhor, dificilmente haverá qualquer senso de expectativa para Cristo vir até aqui ressuscitar os santos adormecidos. A preocupação primária desses cristãos é ir para o céu para encontrar a Cristo imediatamente após a morte, conquanto isso seja com almas desincorporadas, não preparar-se a si próprios e outros para encontrarem a Cristo quando Ele vier a este planeta quando de Seu Retorno.

Na Bíblia, a esperança do Advento significa uma reunião real sobre a Terra entre crentes em seus corpos e Cristo no glorioso dia do Seu retorno. Dessa reunião de fato derivará uma transformação radical que afetará a humanidade e a natureza. Essa grande expectativa é obscurecida pela crença na imortalidade individual e no gozo celestial imediatamente após a morte.

O dualismo tem também contribuído para incompreensões sobre o mundo por vir. A maioria dos cristãos entende que o paraíso é um tipo de retiro espiritual em algum lugar do espaço, onde almas glorificadas passarão a eternidade em infindável contemplação e meditação. Como diz a letra de certo hino, “In mansion of glory and endless delight I will ever adore Thee in heaven so bright” [Na mansão de glória e infindável deleite eu para sempre Te adorarei no tão luminoso céu].

Essa visão etérea do mundo por vir tem sido mais inspirado pelo dualismo platônico do que pelo realismo bíblico. A visão bíblica do mundo futuro não é a de um retiro espiritual habitado por almas glorificadas, mas este planeta povoado por santos ressuscitados (Isa. 66:22; Apoc. 21:1).

Nas Escrituras, Cristo vem a segunda vez, não para ajudar os santos a escaparem deste planeta, mas para transformar a Terra devolvendo-lhe a perfeição original. Sim, o mundo do porvir é um mundo real, habitado, não por almas desincorporadas, mas por corpos ressurretos, ou seja, pessoas reais como você e eu.

Implicações Doutrinárias do Holismo

O ponto de vista holístico da Bíblia quanto à natureza humana pressupõe uma visão cósmica da redenção que abrange o corpo e a alma, o mundo material e o espiritual. A separação entre corpo e alma ou espírito é freqüentemente comparada à divisão entre o reino da Criação e o reino da redenção. O último tem sido associado em grande medida, tanto no catolicismo quanto no protestantismo, à salvação das almas dos indivíduos às expensas das dimensões físicas e cósmicas da redenção. Os santos são amiúde retratados como peregrinos que vivem sobre a terra mas são desligados do mundo, cujas almas na morte deixam de imediato seus corpos materiais para ascender a um lugar abstrato chamado “céu’. Esse ponto de vista reflete o dualismo clássico, mas fracassa, como veremos nesta série de estudos, em representar o ponto de vista holístico bíblico da criação humana e sub-humana.

Notamos que o dualismo tradicional produziu uma atitude de desprezo para com o corpo e o mundo natural. Esse distanciamento do mundo em linguagem de hinos tais como “Este Mundo Não é Meu Lar”, “Sou um estranho aqui, o céu é o meu lar; a terra é um árido deserto, o céu é o meu lar”.

Tal atitude de desprezo para com nosso planeta está ausente dos Salmos, o hinário hebreu, onde o tema central é o louvor de Deus por Suas obras magníficas. No Salmo 139:14, Davi declara: “Eu te louvarei pois fui formado de modo tremendo e maravilhoso: grandiosas são as Tuas obras; isso minha alma conhece muito bem” (NIV). Aqui o salmista louva a Deus por seu maravilhoso corpo, um fato bem conhecido por sua alma (mente). Este é um bom exemplo do pensamento holístico, onde o corpo e alma são parte da maravilhosa criação de Deus.

No Salmo 92, o salmista insta todos a louvarem a Deus com instrumentos musicais, porque, diz ele, “Tu, ó Senhor, alegraste-me por Tuas obras; canto de alegria pelas obras de Tuas mãos. Quão grande são as Tuas obras, ó Senhor!” (Sal. 92:4-5). O regozijo do salmista com seu maravilhoso corpo e maravilhosa criação baseiam-se em sua concepção holística do mundo criado como parte integral de todo o drama da criação e redenção.

O ponto de vista bíblico da natureza humana também causa impacto sobre nossa visão do mundo por vir. Num estudo futuro veremos que a Bíblia não retrata o mundo por vir como um paraíso etéreo onde almas glorificadas passsarão a eternidade trajando vestes brancas, cantando, tocando harpas, orando, perseguindo nuvens e bebendo leite de ambrósia. Em vez disso, a Bíblia fala dos santos ressurretos habitando este planeta que será purificado, transformado e tornado perfeito por ocasião e mediante a vinda do Senhor (2 Ped. 3:11-13; Rom. 8:19-25; Apoc. 21:1). Os “novos céus e uma nova terra” (Isa. 65:17) não são um retiro espiritual remoto e inconseqüente em algum recanto do espaço; antes, são o céu e a terra presentes renovados à sua perfeição original.

Os crentes entram na nova terra, não como almas desincorporadas, mas como pessoas ressuscitadas em seus corpos (Apoc. 20:4; João 5:28-29; 1 Tess 4:14-17). Conquanto nada impuro entre na Nova Jerusalém, é-nos dito que “os reis da terra trarão para ela a sua glória . . . a ela trarão a glória e honra das nações” (Apoc. 21:24, 26). Tais versos sugerem que tudo quanto tem real valor no velho céu e terra, inclusive as realizações da inventividade artística e conquistas intelectuais, encontrarão seu lugar na ordem da eternidade. A própria imagem da “cidade” transmite a idéia de atividade, vitalidade, criatividade e relacionamentos reais.

É lamentável que essa visão terrena fundamentalmente concreta do novo mundo de Deus retratado nas Escrituras tenha sido em grande parte perdida de vista e substituída na religiosidade popular por um conceito etéreo, espiritualizado do céu. O último tem sido influenciado pelo dualismo platônico, antes que pelo realismo bíblico.

Conclusão

Historicamente, duas visões principais, radicalmente diferentes da natureza humana, têm sido mantidas. Uma é designada como dualismo clássico e a outra como holismo bíblico. O ponto de vista dualístico mantém que a natureza humana consiste de um corpo material, mortal, e uma alma espiritual, imortal. A última sobrevive à morte do corpo e parte para o céu, ou purgatório ou inferno. Por ocasião da ressurreição, a alma é reunida ao corpo. Essa concepção dualística tem exercido um enorme impacto sobre a vida e pensamentos cristãos, afetando a visão que as pessoas têm da vida humana, este mundo presente, a redenção e o mundo do além.

Em tempos recentes, a visão dualística da natureza humana tem sofrido ataques de eruditos que reexaminaram o ponto de vista bíblico do corpo, alma e espírito. Eles concluíram que a visão bíblica da natureza humana não é de modo algum dualística, mas claramente holística. Muitas vozes de diferentes direções estão afirmando hoje que o dualismo está perdendo terreno e o holismo ganhando.

Este breve relatório sobre o debate em andamento da posição bíblica da natureza humana demonstrou a importância fundamental deste assunto para toda a estrutura das crenças e práticas cristãs. Faz-se, pois, imperativo que diligentemente examinemos o que a Bíblia realmente ensina sobre esse tema vital.
II – O ponto de vista bíblico da natureza humana

O primeiro estudo mostrou que a crença na vida consciente após a morte deriva de uma visão dualística da natureza humana que é estranha à Bíblia.

Este estudo explora a visão bíblica da natureza humana a partir de três perspectivas: Criação, Queda e Redenção. Consideraremos como era a natureza humana por ocasião da Criação, o que se tornou após a Queda, e como se tornará em resultado da Redenção. Estes pensamentos são extraídos de meu livro Immortality or Resurrection? A Biblical Study on Human Nature and Destiny [Imortalidade ou Ressurreição, Um Estudo Bíblico Sobre a Natureza e Destino Humanos], onde o leitor encontrará um tratamento abrangente do assunto. 1 Tal livro foi lançado em dezembro de 1997, e já recebeu críticas favoráveis por mais de 50 eruditos de diferentes persuasões.

Desejo inicialmente chamar a atenção do leitor para dois importantes pontos encontrados no estudo a que agora se dedicará. O primeiro é a referência freqüente em Gênesis aos animais como “almas viventes”—que é a mesma expressão usada para caracterizar os seres humanos. Isto é significativo porque demonstra que a “alma” não é uma substância imaterial, imortal, que somente os seres humanos possuem, mas um princípio ativo de vida comum a todas as criaturas viventes. O segundo ponto é a referência de Paulo a “espírito” 146 vezes, comparado com 13 referências a “alma”. Ademais, Paulo nunca emprega a “alma-psyche” para denotar a vida que sobrevive à morte. Muito provavelmente isso se deu porque tal termo poderia levar seus conversos gentios a pensarem na vida eterna segundo o ponto de vista grego da imortalidade inata.

A Natureza Humana na Criação

O relato da criação nos informa que Deus criou a natureza humana como um organismo holístico, consistindo de corpo, sopro de vida, e alma, sendo tudo características da mesma pessoa. Essas características distintivas da natureza humana são expressas em dois textos principais. O primeiro é Gên. 1:26-27, que nos conta como Deus planejou os seres humanos criados, e o segundo é Gên. 2:7, que nos relata como Ele o fez. “Então disse Deus: ‘Façamos o homem à nossa imagem, segundo a nossa semelhança . . . Assim criou Deus o homem à Sua própria imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou” (Gên.1:26-27).

Tentativas elaboradas têm sido feitas para definir o que a “imagem de Deus” é na qual o homem foi criado. Alguns argumentam que a imagem de Deus é a alma imaterial, espiritual implantada no corpo humano. Assim, Calvino afirma: “Não se pode duvidar que a apropriada posição da imagem de Deus é a alma”.2 Esse ponto de vista pressupõe um dualismo entre o corpo e a alma que não se acha no relatório da criação. O homem não recebeu uma alma de Deus; ele foi feito uma alma vivente. Os animais também foram feitos “almas viventes” (Gên.1:20, 21, 24, 30; 2:19), contudo, não foram criados à imagem de Deus.

A imagem de Deus na humanidade deve ser encontrada na singular capacidade concedida aos seres humanos de refletir o Seu caráter moral. Entende-se a conformidade com a imagem de Cristo (Rom. 8:29; 1 Cor. 15:49) não em termos de uma alma imortal implantada na natureza humana, mas em termos de justiça e santidade: “Revesti-vos da nova natureza que está sendo renovada em conhecimento segundo a imagem de seu Criador” (Col. 3:10; cf. Efé. 4:24). Em vitude de serem criados à imagem de Deus, os seres humanos são capazes de refletir o Seu caráter em suas próprias vidas.

A imortalidade nunca é mencionada na Bíblia em conexão com a imagem de Deus nos seres humanos. A árvore da vida representava imortalidade em comunhão com o Criador, mas em resultado do pecado, Adão e Eva tiveram barrado o acesso à fonte de vida contínua.
Gênesis 2:7: “Uma Alma Vivente”. A segunda importante declaração bíblica para entender a natureza humana por ocasião da Criação é o breve relato da própria crição do homem: “Então formou Deus o homem do pó da terra, e soprou-lhe nas narinas o fôlego de vida; e o homem tornou-se uma alma vivente” (Gên. 2:7). Historicamente, este texto tem sido lido através das lentes do dualismo. Tem-se presumido que o fôlego de vida que Deus soprou nas narinas de Adão foi simplesmente uma alma imaterial, imortal, que Deus implantou em seu corpo. Assim, a frase “o homem tornou-se uma alma vivente” (Gên. 2:7) tem sido interpretada como significando que “o homem obteve uma alma vivente”. E assim como a vida terrena começou com a implantação de uma alma imortal num corpo físico, dessa sorte, segundo os dualistas, termina quando a alma deixa o corpo.

O problema com essa interpretação jaz no fato de que o “fôlego de vida [neshamah]” que Deus soprou nas narinas de Adão não foi uma alma imortal, mas o Espírito divino que transmite vida e é freqüentemente caracterizado como o “sopro de Deus”. Assim, lemos em Jó 33:4: “O espírito [ruach] de Deus me criou, e o sopro [neshamah] do Todo-poderoso me concede vida”. O paralelismo entre o “espírito de Deus” e “o sopro do Todo-poderoso”, que se acha com freqüência na Bíblia (Isa. 42:5; Jó 27:3; 34:14-15), sugere que os dois termos são usados intercambiavelmente porque ambos fazem referência ao dom da vida concedido por Deus a Suas criaturas.

O Espírito de Deus que concede vida é descrito pela sugestiva imagem do “fôlego de vida”, porque a respiração é uma manifestação tangível de vida. Uma pessoa que não mais respira está morta. Jó declara: “Enquanto estiver em mim o meu fôlego [neshamah], e o espírito [ruach] de Deus estiver em minhas narinas; meus lábios não falarão a falsidade” (Jó 27:3). Aqui o “fôlego” humano e o “espírito” divino são equiparados, porque respirar é visto como uma manifestação do poder sustenedor do Espírito de Deus.

A posse do “fôlego de vida” não confere em si mesmo imortalidade, porque, por ocasião da morte, “o fôlego de vida” retorna para Deus. A vida deriva de Deus, é sustida por Deus, e retorna para Deus. Essa verdade é expressa em Eclesiastes 12:7: “O pó volta à terra, como era, e o espírito volta para Deus que o deu”. O que retorna para Deus não é a alma imortal humana, mas o Espírito divino que transmite vida e que nas Escrituras são igualadas ao fôlego de Deus: “Se Ele [Deus] tomasse de volta o Seu espírito [ruach] para Si, e reavesse o Seu fôlego [neshamah], toda carne pereceria juntamente, e o homem retornaria ao pó” (Jó 34:14-15). O paralelismo indica que o fôlego de Deus é o Seu Espírito transmissor de vida.

O fato de que a morte é caracterizada como a retirada do fôlego de vida (o Espírito divino que concede vida), demonstra que o “fôlego de vida” não é um espírito ou alma imortal que Deus confere a Suas criaturas, mas o dom da vida que os seres humanos possuem pela duração de sua existência terrena. Enquanto permanecer o “sopro de vida”, os seres humanos são “almas viventes”. Mas quando o sopro se vai, tornam-se almas mortas. Isso explica porque a Bíblia freqüentemente se refere à morte humana como a morte da alma (Lev. 19:28; 21:1, 11; 22:4; Núm. 5:2; 6:6,11; 9:6, 7, 10; 19:11, 13; Ageu 2:13).

Corpo é Alma Visível. A maior parte dos eruditos bíblicos reconhece que a “alma-nephesh” em Gênesis 2:7 não é uma essência imaterial, imortal distinta, implantada no corpo, mas simplesmente o princípio que anima o corpo. Comentando sobre Gên. 2:7, o erudito católico Dom Wulstan Mork, escreve: “É nephesh [alma] que dá vida ao bashar [corpo]. O corpo, longe de ser separado de seu princípio que anima o corpo, é a alma [nephesh].”3 Em idêntica linha de pensamento, Hans Walter Wolff, autor de um avançadíssimo estudo de Antropologia do Velho Testamento, pergunta: “O que nephesh [alma] significa aqui? Certamente não a alma [no sentido dualístico tradicional]. . . . O homem não possui nephesh [alma], ele é nephesh [alma], ele vive como nephesh [alma].”4

Sumariando, a expressão “o homem se tornou uma alma vivente—nephesh hayyah” simplesmente significa que como resultado do sopro divino, o corpo inanimado tornou-se um ser vivente, que respirava— não mais e não menos do que isso. O coração começou a bater, o sangue a circular, o cérebro a pensar, e todos os sinais vitais foram ativados. Declarado em termos simples, “uma alma vivente” significa “um ser vivo”, e não “uma alma imortal”.
Os animais como “almas viventes”

Uma prova muito patente de que a expressão “alma vivente” não significa “alma imortal” é o repetido emprego da mesma frase “alma vivente-nephesh hayyah” para descrever a criação dos animais (Gên. 1:20, 21, 24, 30; 2:19; 9:10, 12, 15, 16; Lev. 11:46). Este importante fato é desconhecido da maioria das pessoas porque os tradutores da maioria das versões decidiram traduzir a frase hebraica “nephesh hayyah” como “criaturas viventes” quando referindo-se aos animais, e como “alma vivente” quando empregada para seres humanos. Por quê? Simplesmente porque os tradutores estavam tão condicionados por suas crenças de que tão-só os seres humanos contam com uma alma imortal não possuída pelos animais, que tomaram a liberdade de traduzir o nephesh do hebraico como “criatura”, antes que “alma”, quando quer que era empregada para animais.

Norman Snaith condena com justiça esse interpretação arbitrária como “bastante repreensível” porque a frase hebraica devia ser traduzida exatamente do mesmo modo em ambos os casos. Fazê-lo doutro modo é enganar todos quantos não lêem o hebraico. Não há desculpas nem defesa apropriada.”5

O repetido emprego de nephesh-alma como referência a toda sorte de animais claramente revela que a nephesh-alma não é uma essência concedida aos seres humanos, mas o princípio que anima a vida ou o “fôlego de vida” que está presente tanto nas pessoas quanto nos animais porque ambos são seres conscientes. O que distingue os seres humanos dos animais não é a alma, mas o fato de que os seres humanos foram criados à imagem de Deus, isto é, com possibilidades semelhantes às de Deus, não disponíveis aos animais.
O relato bíblico da criação do homem indica que a natureza humana consiste de um todo indivisível onde o corpo, o fôlego de vida, e a alma funcionam, não como entidades separadas, mas como características da mesma pessoa. O corpo é uma pessoa como um ser concreto; a alma é uma pessoa como um indivíduo vivo; o fôlego ou espírito de vida é uma pessoa tendo sua fonte em Deus. Esta é a essência do ponto de vista criacional da natureza humana, expandida no restante da Bíblia.

A Natureza Humana Após a Queda

A Queda não mudou a constituição da natureza humana, mas alterou seu estado ou condição. De um estado em que era impossível para os seres humanos morrer (imortalidade condicional), passaram a um estado em que era impossível que não morressem (mortalidade incondicional). Antes da Queda, a segurança da imortalidade era transmitida por partilharem da árvore da vida, não pela posse de uma alma imortal. A presença da “árvore da vida” no Jardim do Éden indica que a imortalidade era condicional à participação no fruto daquela árvore.
A fim de impedir à humanidade pecadora a possibilidade de “viver para sempre” (Gên. 3:22), após a Queda Deus barrou o acesso à árvore da vida (Gên. 3:22, 23). Esse ato divino per si revela que por ocasião da Criação a imortalidade não era uma concessão que residia na alma, mas uma possibilidade condicional à obediência humana.
Os que insistem em encontrar a imortalidade na alma, lêem na criação humana idéias do dualismo grego estranhas à Bíblia.
Após a Queda, Adão e Eva não mais tiveram acesso à árvore da vida (Gên. 3:22-23) e, conseqüentemente, começaram a experimentar a realidade do processo da morte. O fato de que Adão e Eva não morreram no dia de sua transgressão como Deus lhes havia advertido (Gên. 2:17), tem levado alguns a concluir que não morreram porque eram dotados de uma alma imortal. Essa interterpretação imaginativa dificilmente pode ser sustentada pelo texto, que, literalmente traduzido reza: “morrendo morrereis”. O que Deus quis simplesmente dizer é que no dia em que eles desobedecessem, o processo da morte teria início.

A Pessoa Inteira Morre

A advertência divina (Gên.2:17) estabelece uma clara ligação ética entre a vida e a obediência versus morte e desobediência. A natureza humana não foi criada com uma alma imortal, mas com a possibilidade de tornar-se imortal. A desobediência resultou em morte, não apenas para o corpo, mas para a pessoa inteira. Deus não disse: “no dia em que comerdes dela, vossos corpos morrerão enquanto vossa alma sobreviverá num estado desincorporado”. Antes, declarou: “Vós”, ou seja, a pessoa inteira, “morrereis”.
Este é um ensino fundamental da Bíblia. O salário do pecado é a morte, não apenas para o corpo, mas para a pessoa inteira (Rom 6:23; Eze. 18:4, 20). “A alma que pecar, essa morrerá” (Eze. 18:4). A morte do corpo está ligada à morte da alma porque o corpo é a forma visível da alma. Isto explica por que a morte de uma pessoa é amiúde descrita como a morte da alma. (Núm. 31:19; 35:15,30; Jos. 20:3, 9; Gên. 37:21; Deut. 19:6, 11; Jer. 40:14, 15; Juí. 16:30; Núm 23:10). É-nos dito repetidamente que quando Josué conquistou as várias cidades além do Jordão “ele destruiu totalmente toda alma [nephesh]” (Jos. 10:28, 30, 31, 34, 36, 38). A destruição do corpo é vista como a destruição da alma porque por ocasião da morte a alma deixa de funcionar como o princípio transmissor de vida do corpo.
Sumariando, a natureza humana após a Queda passou de um estado de imortalidade condicional para um estado de mortalidade incondicional para a pessoa inteira. A crença popular e tradicional de que a alma sobrevive ao corpo quando da morte pode ter sua origem identificada na mentira de Satanás, “certamente não morrereis” (Gên.3:4). Essa sutil mentira tem perdurado em diferentes formas através da história humana até nosso tempo.
Nossa única proteção contra esse engano popular deve ser encontrada mediante um claro entendimento do ponto de vista bíblico da natureza e destino humanos. As Escrituras ensinam que a imortalidade não é uma possessão natural da alma, mas o dom de Deus (Rom. 6:23) para ser buscada (Rom. 2:7) e dela se revestir (1 Cor. 15:53) por ocasião da resurreição por aqueles que aceitaram a graciosa provisão da salvação (João 17:2-3; Mat. 19:29).

A Natureza Humana Resultante da Redenção

A redenção revela o valor que Deus atribui à natureza humana porque nos fala de que Ele decidiu redimir a natureza humana assumindo-a mediante a encarnação de Seu Filho. O Verbo “Se fez carne e habitou entre nós” (João 1:14). A idéia do Filho de Deus assumindo uma natureza humana física era incompreensível para os gnósticos, um movimento cristão primitivo influente vastamente influenciado pelo dualismo grego. Eles rejeitavam abertamente a encarnação de Cristo porque não viam valor no aspecto físico da natureza humana. Isso ilustra vigorosamente a diferença entre o ponto de vista holístico bíblico, que considera o corpo como prisão da alma a ser descartado ao tempo da morte.
O fato de que o divino Filho de Deus assumiu um corpo humano mortal quando de Seu nascimento e reteve um corpo humano glorificado por ocasião de Sua Ressurreição (João 20:27), demonstra do modo mais claro possível que a natureza humana tem o seu lugar no eterno propósito de Deus. Fala-nos que o corpo não é uma prisão temporária ou um meio para propiciar espaço para “almas”, mas nossa personalidade total que Deus Se dispõe a preservar e trazer de volta à vida no dia da ressurreição.

A Regeneração Moral da Natureza Humana

O propósito da missão redentora de Cristo não é a libertação da alma do corpo, mas a regeneração da pessoa inteira nesta presente vida e a ressurreição da pessoa inteira no mundo por vir. O Espírito de Deus é o agente ativo tanto na criação quanto na recriação da natureza humana. A recriação da natureza humana tem lugar em duas fases: a regeneração moral tem lugar na vida presente e a transformação física da mortalidade para a imortalidade ocorrerá por ocasião da ressurreição. A função do Espírito—pneuma como princípio vital—é expandido no Novo Testamento para incluir tanto a regeneração moral presente quanto a transformação física futura.

Ao tempo da Criação o homem foi feito uma alma vivente pelo Espírito de Deus (Gên. 2:7). Em resultado da redenção os crentes são tornados uma nova criação pela obra do Espírito Santo. A regeneração moral realizada pelo Espírito Santo é descrita por João como renascimento (João 3:5) e por Paulo como nova criação.
Paulo atribui importância vital ao papel do Espírito na nova vida do crente (2 Cor. 5:17; cf. 1 Cor. 6:11; Gál. 3:27; 6:15; Efé. 4:24). Isto é indicado pelo fato de que em suas cartas ele se refere ao “espírito” 146 vezes, comparado com somente 13 referências à “alma”. Ademais, Paulo nunca emprega a “alma-psyche” para denotar a vida que prossegue além da morte. Pelo contrário, ele emprega a frase soma psychikon, que literalmente significa “corpo espiritual”, para descrever o corpo físico que será transformado em corpo espiritual (soma pneumatikon) quando da ressurreição. A razão por que Paulo evita o emprego do termo “alma-psyche” para designar a vida por vir é muito provavelmente porque tal termo poderia confundir seus conversos gentílicos levando-os a pensar na vida eterna segundo o ponto de vista grego da imortalidade inata.

Para assegurar que a salvação deve ser entendida exclusivamente como um dom divino de graça mediante “o espírito de vida em Cristo Jesus” (Rom. 8:2), Paulo destaca o papel do Espírito Santo tanto na regeneração moral desta vida presente (Efé. 4:23; Rom. 8:5) quanto na transformação física da vida por vir (Rom. 8:11, 22-23). Tanto a criação quanto a recriação, nascimento e renascimento, são atos do Espírito porque, como Jesus explicou, “o Espírito é o que vivifica” (João 6:63).

A Transformação Física da Natureza Humana.

A transformação derradeira da natureza humana se realizará no glorioso dia da Vinda de Cristo “quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade” (1 Cor. 15:54). Paulo assegura aos crentes que “o Espírito Daquele que dos mortos ressuscitou a Jesus . . . também vivificará os vossos corpos mortais” (Rom. 8:11). É evidente que a imortalidade não é uma possessão natural da alma, mas um dom divino que os corpos mortais receberão (“se revestirão”) quando da ressurreição.

A transformação final da natureza humana é descrita como “a resurreição do corpo” porque o Novo Testamento nunca aceita a crença na imortalidade da alma. A vida sem o corpo é inconcebível na Bíblia, porque o corpo é a expressão concreta da pessoa inteira. Sua ressurreição é indispensável para assegurar personalidade e vida plenas na novo terra.

É digno de nota que em 1 Coríntios 15, o único capítulo na Bíblia inteiramente dedicado à ressurreição/trasladação dos crentes, não há referência à religação dos corpos ressurretos a almas espirituais. De fato, no capítulo inteiro Paulo nunca menciona a “alma-psyche”. Se a ressurreição envolvesse a religação do corpo à alma, como os católicos e a maior parte dos protestantes crêem, não seria estranho que Paulo deixasse de mencionar isso inteiramente em sua discussão da natureza da ressurreição? Afinal de contas, tal conceito é fundamental para entender o que se dá com o corpo e a alma por ocasião da ressurreição . A ausência de qualquer referência à alma claramente indica que Paulo cria na ressurreição da pessoa inteira, não na religação do corpo à alma.
O Sentido da Ressurreição do Corpo. A ressurreição do corpo não significa reabilitação de nossos corpos físicos presentes, que freqüentemente estão enfermos ou em sofrimento, mas a restauração de nossa pessoa integral. Na Bíblia o corpo se apresenta como referindo-se à pessoa inteira. Quando Paulo escreve: “Aguardamos a adoção como filhos, a redenção de nossos corpos” (Rom 8:23), ele simplesmente quer dizer a restauração de nosso ser total. Crer na ressurreição/trasladação do corpo significa crer que o meu eu humano, o ser humano que “eu” sou, será restaurado à vida novamente. Significa que não serei alguém diferente de quem eu sou agora. Serei exclusivamente eu mesmo. Em suma, significa que Deus Se comprometeu a preservar minha individualidade, personalidade e caráter.

É meu caráter ou personalidade que desenvolvemos nesta vda que Deus preserva em Sua memória e reunirá à pessoa ressuscitada. Não há dois caracteres iguais porque não há duas pessoas que enfrentem as mesma tentações, lutas, derrotas, desapontamentos, vitórias e crescimento em sua vida cristã. Isso elimina a possibilidade de “duplicação” de pessoas por ocasião da ressurreição, todos se parecendo, agindo e pensando igual. Cada um de nós tem um caráter ou personalidade único que Deus preserva e unirá ao corpo ressuscitado. Isso explica a importância de desenvolver um caráter cristão nesta vida presente, porque essa será nossa identidade pessoal no mundo por vir.

A pesquisa precedente demonstrou que o ponto de vista bíblico da natureza humana é holística, consistindo de uma pessoa indivisível onde a alma é o princípio animado do corpo. Descobrimos que o relato da criação nos conta que originalmente a natureza humana integral era condicionalmente imortal. A Queda nos informa que a natureza humana integral tornou-se incondicionalmente mortal. A redenção nos reassegura que Deus fez provisões para a natureza humana integral ser moralmente renovada nesta vida presente e fisicamente restaurada no mundo por vir. Este é o plano glorioso de Deus para nossa natureza e destino humanos; um plano que abrange a criação, redenção e restauração final da natureza humana inteira, bem como do planeta todo.

Nosso próximo estudo bíblico trata com “A Visão Bíblica da Morte”. Ensina a Bíblia que a morte é a separação da alma imortal do corpo mortal? Ou ensina que a morte é a terminação da vida para a pessoa inteira, corpo e alma? Para encontrar as respostas a estas perguntas pesquisaremos as Escrituras examinando todas as passagens pertinentes. Este é um importante estudo para desmascarar o prevalecente engano da vida consciente após a morte.

REFERÊNCIAS

1. Para adquirir um exemplar de Immortality or Ressurrection? A Biblical Study of Human Nature and Destiny,
(em inglês) dirija-se ao seguinte endereço: Biblical Perspectives — 4990 Appian Way, Berrien Springs,
Mich., 49103, USA. Também poderá dirigir-se ao e-mail: samuele@andrews.edu ou Sbacchiocchi@csi.com.
2. John Calvin, Institutes of the Christian Religion I, XV, 3 (Londres, 1949), Vol. 1, pp. 162, 165.
3. Dom Wulstan Mork, The Biblical Meaning of Man (Milwaukee, Wisconsin, 1967), p. 34.
4. Hans Walter Wolff, Anthropology of the Old Testament (Filadélfia, 1974), p. 10.
5. Norman Snaith, “Justice and Immortality,” Scottish Journal of Theology 17, 3, (setembro de 1964), pp. 312-

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