O Que Diz o Novo Testamento Sobre o Divórcio

John C. Brunt*

Neste artigo o autor analisa a visão sobre o divórcio do Novo Testamento à luz dos diferentes contextos histórico-culturais abrangidos e traz uma importante contribuição para o entendimento desta questão à luz de nossos tempos, quando o problema do divórcio e novo casamento se revela tema de implicações éticas de crescente relevância no seio da Igreja contemporânea.1

Há não muito tempo, assisti a uma reunião de comissão de igreja que durou duas horas e meia. Duas horas foram gastas em dois itens: dois casos de divórcio. Após essas duas horas de discussão às vezes vigorosa, a mesa revelou-se incapaz de chegar a uma conclusão e remeteu ambos os casos a outras comissões (uma das quais teve que criar) para estudo adicional. Essa situação dificilmente seria incomum. Divórcio e novo casamento apresentam à igreja alguns de seus mais difíceis dilemas.

À medida que igrejas locais reagem ao problema do divórcio, desejam ser coerentes com o que o Novo Testamento aconselha e requer. Em conseqüência, é relevante, até mesmo crucial, que as passagens neotestamentárias que discutem o divórcio sejam examinadas. Deter-nos-emos rapidamente no contexto e ensino de cada passagem antes de tirar várias conclusões relativas à relevância delas para o entendimento e tratamento da igreja com respeito ao divórcio. O mais importante dessas conclusões é que no Novo Testamento, o pressuposto contra o divórcio, conquanto bastante forte, não é absoluto. Estudaremos as passagens segundo a ordem cronológica geralmente aceita em que foram escritas

I Coríntios 7:10-16:
Ora, aos casados, ordeno, não eu mas o Senhor, que a mulher não se separe do marido (se, porém, ela vier a separar-se que não se case, ou que se reconcilie com seu marido); e que o marido não se aparte de sua mulher. Aos mais digo eu, não o Senhor: Se algum irmão tem mulher incrédula e esta consente em morar com ele, não a abandone; e a mulher que tem marido incrédulo, e este consente em viver com ela, não deixe o marido. Porque o marido incrédulo é santificado no convívio da esposa e a esposa incrédula é santificada no convívio do marido crente. Doutra sorte os vossos filhos seriam impuros; porém, agora, são santos. Mas, se o descrente quiser apartar-se, que se aparte; em tais casos não fica sujeito à servidão, nem o irmão, nem a irmã; Deus vos tem chamado à paz. Pois, como sabes, ó mulher, se salvarás a teu marido? ou como sabes, ó marido, se salvarás a tua mulher.

Como veremos, há várias dificuldades em compreender plenamente esses versos, mas fica claro na passagem que Paulo conhecia os dizeres de Jesus proibindo o divórcio. A despeito disso, Paulo também reconhecia que o divórcio podia ocorrer (conquanto não saibamos em que contexto) e admoestava contra o novo casamento (verso 10). adicionalmente, e ainda mais digno de nota, Paulo desejava recomendar divórcio numa situação–a do cônjuge descrente que desejava separar-se.

O conselho de Paulo concernente ao divórcio aparece dentro de uma discussão mais ampla em que Paulo responde a perguntas com respeito à sexualidade e casamento. Aparentemente, havia cristãos em Corinto que partiram para extremos opostos. Alguns criam que em questões sexuais todas as coisas eram  lícitas (Paulo os  refuta em I Cor. 6:12-20), enquanto outros pensavam que mesmo relações sexuais no casamento eram erradas (Paulo os refuta em 7:1-7). A discussão sobre divórcio segue-se à refutação de Paulo quanto à última e pode até mesmo  ter  de ver com isso; alguns podem ter imaginado que devido a serem erradas as relações sexuais, os cristãos deviam divorciar-se. 2

Em 7:10,11 Paulo argumenta que os cristãos não deviam divorciar-se e baseia a sua recomendação numa declaração de Jesus.3 Segundo Jesus, uma esposa não deve separar-se de seu marido, e um marido não deve divorciar-se de sua esposa. Paulo acrescenta um parêntese entre esses dois conselhos, contudo, que declara que se a esposa se separar do marido, deve permanecer solteira.

No verso 12 Paulo parte do tema do divórcio em geral para uma situação conjugal difícil específica. O que deveria fazer um cristão que está casado com uma pessoa descrente? Paulo responde que tais casamentos mistos são ilegítimos e, portanto, o cristão deve permanecer com o cônjuge descrente, a menos que esse cônjuge deseje separar-se. No último caso, Paulo estabelece uma exceção (observe-se que a exceção é de Paulo, e não faz parte da declaração de Jesus). Deus nos chamou para a paz; portanto, o cristão não deve forçar o cônjuge relutante e descrente a manter o matrimônio.

Vários problemas emergem da passagem. Primeiro, por que Paulo às vezes utiliza a palavra “divórcio” e às vezes usa “separar”? Estaria ele tentando estabelecer uma distinção? Provavelmente não; os dois termos parecem ser sinônimos e intercambiáveis.4
Segundo, qual é o significado do “parêntese paulino” no verso 11? Se o Senhor disse que não deveria haver divórcio, por que Paulo aparentemente permite tal possibilidade mas daí nega o novo casamento? Várias possibilidades têm sido sugeridas5: Paulo está simplesmente reconhecendo a realidade de que divórcios ocorrerão; está pensando num caso  específico  na  igreja  em que separação já ocorreu; deseja deixar em aberto a possibilidade de divórcio para ascetas sexuais que não podem conscienciosamente permanecer casados (conquanto o próprio Paulo se oponha a essa posição); ou o parêntese seria uma interpolação posterior. As primeiras duas possibilidades são melhores, mas é impossível responder a esta pergunta com certeza.

O terceiro problema para entender esta passagem envolve o sentido das duas perguntas no verso 16. Está Paulo falando sobre a possibilidade positiva de salvar o cônjuge descrente, ou estaria argumentando que alguém não devia manter o cônjuge relutante no relacionamento, realçando que o cristão não pode estar certo de ganhá-lo(a)? Em outras palavras, está ele dizendo: “Permaneça com o cônjuge descrente; você poderia convertê-lo(a)”, ou estaria declarando: “Que se vá o cônjuge relutante; como saberá se poderia covertê-lo(a)?” Num artigo recente Sakae Kubo apresentou argumentos persuasivos em favor da última hipótese.6
Finalmente, Paulo permite o novo casamento para o cristão que se divorciou de um cônjuge descrente? Alguns apontam ao verso 11 e crêem que ele é decisivo também para esta situação. Assim, nenhum novo casamento é permitido.7 Outros dão destaque às palavras “não fica sujeito” do verso 15 e argumentam que Paulo permite o novo casamento.8 Paulo não é explícito, e nesse ponto específico nenhuma conclusão definitiva se faz possível.

O que é certo é que nesses versos Paulo abre uma exceção à proibição de divórcio, e ele o faz com base em princípio. Deus nos chamou para a paz. Obrigar um cônjuge descrente a continuar num casamento indesejável viola este princípio de paz.

Marcos 10:2-12:

E, aproximando-se alguns fariseus o experimentaram, perguntando-lhe: É lícito ao marido repudiar sua mulher? Ele lhes respondeu: Que vos ordenou Moisés? Tornaram eles: Moisés permitiu lavrar carta de divórcio e repudiar. Mas Jesus lhes disse: Por causa da dureza do vosso coração ele vos deixou escrito esse mandamento; porém, desde o princípio da criação, Deus os fez homem e mulher. Por isso deixará o homem a seu pai e mãe [e unir-se-á a sua mulher], e com sua mulher, serão os dois uma só carne. De modo que já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem. Em casa, voltaram os discípulos a interrogá-lo sobre este assunto. E ele lhes disse: Quem repudiar sua mulher e casar com outra, comete adultério, contra aquela. E se ela repudiar seu marido e casar com outro, comete adultério.

Agora nos dirigiremos ao material dos evangelhos que, em muitas maneiras, é mais difícil devido às diferenças entre relatos paralelos em diferentes evangelhos. Várias coisas estão claras na passagem, contudo. Jesus sustenta um ideal, baseado na Criação, de que não deveria haver divórcio. Adicionalmente, tal como a passagem se apresenta em Marcos, há um definido progresso na posição da mulher. Um homem que se divorcia de sua mulher comete adultério contra ela. Finalmente, o adultério é colocado em contraste com o novo casamento, não com o divórcio.

Nossa análise começa com Marcos, já que se presume geralmente ter sido escrito primeiro. Esta passagem propicia a primeira citação explícita do ensino de Jesus quanto ao divórcio, embora se siga à referência de Paulo a este ensino por mais de um década.

Os fariseus abrem a discussão com uma pergunta: “É lícito ao marido repudiar a sua mulher?” Jesus responde fazendo referência a Moisés e assinalando que a certidão de divórcio que Moisés permitia era concedida por causa da dureza de seus corações; o ideal de Deus é que não houvesse divórcio. No casamento duas pessoas são unidas por Deus para  uma unidade permanente. Jesus apela à Criação como o fundamento desse ideal.

Daí Jesus oferece conselhos adicionais privadamente aos discípulos. Um homem que se divorcia da esposa e se casa com outra comete adultério contra ela, e uma mulher que se divorcia de seu marido e se casa com outro comete adultério.

As principais dificuldades interpretativas aqui envolvem a comparação desta passagem com o relato paralelo em Mateus.

Reservaremos o comentário quanto à maior parte dessas dificuldades até que hajamos analisado o paralelo.

Há vários elementos exclusivos de Marcos que têm causado problemas para alguns porque não parecem refletir o ambiente do judaísmo palestino. A pergunta inicial do fariseu, “É lícito ao marido repudiar a sua mulher?” parece algo estranho, uma vez que o debate entre os fariseus não era quanto ao divórcio como tal, mas quanto às bases para divórcio. A Escola de Shammai argumentava que o divórcio era somente permissível em casos de adultério, enquanto a Escola de Hillel contra-argumentava que um homem poderia mandar embora a esposa por qualquer razão, até por ela queimar o jantar.9 Como veremos, o relato de Mateus reflete esse debate farisaico.

As palavras “contra ela”10 não se harmonizam tampouco com a prática palestina costumeira, em que o adultério era considerado como um pecado contra outro homem, cujos direitos de propriedade sobre sua esposa foram violados em razão do adultério.11 Estaria Jesus redefinindo o adultério, ou a passagem de Marcos transparece uma influência posterior?

Uma pergunta semelhante emerge quando Marcos é o único evangelho em que Jesus fala de uma mulher divorciando-se de seu marido. Isso era comum no mundo gentílico, mas proibido num contexto judaico. Esse elemento remontaria a Jesus ou refletiria o ambiente gentílico de Marcos? Tais perguntas são extremamente difíceis de responder com certeza. Contudo, é óbvio que a passagem passa bem perto da proibição contra o divórcio, nunca reconhecendo quaisquer exceções. Enquanto os fariseus falam do que é permitido e desejam conhecer os seus direitos, Jesus continuamente gira a discussão em torno da vontade de Deus e seu ideal para o matrimônio.12 Na verdade, para Jesus o casamento é tão absoluto que o divórcio não termina necessariamente a relação matrimonial. Esse relacionamento prossegue de modo que o novo casamento é considerado uma violação do compromisso matrimonial.

Mateus 19:3-9:

Vieram a ele alguns fariseus, e o experimentavam, perguntando: É lícito ao marido repudiar a sua mulher por qualquer motivo? Então respondeu ele: Não tendes lido que o Criador desde o princípio os fez homem e mulher, e que disse: Por esta causa deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne? De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem. Replicaram-lhe: Por que mandou então Moisés dar carta de divórcio e repudiar? Respondeu-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossas mulheres; entretanto, não foi assim desde o princípio. Eu, porém, vos digo: Quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra, comete adultério [e o que casar com a repudiada comete adultério].

Este é claramente um relato do mesmo incidente registrado na passagem anterior. Contudo, há várias diferenças marcantes. As mais importantes destas são:

1.  A indagação inicial dos fariseus tem que ver com as bases para o divórcio, e não o divórcio em si. (As palavras “por qualquer motivo” são acrescentadas.) Isso coloca a discussão no contexto do debate Hillel-Shammai.
2.  Não há menção de uma mulher divorciando-se de seu marido ou do adultério sendo contra a mulher.
3.  Uma exceção, que não está presente em Marcos (ou Paulo), é encontrada. Um homem que se divorcia de sua mulher exceto por infidelidade e se casa com outra comete adultério.

Em cada um desses casos a versão de Mateus reflete mais claramente um ambiente judaico. Dá-se isso por estar ele mais próximo da situação original ou por estar escrevendo num contexto judaico e modificar o seu material para ajustar-se a isso? O debate sobre esse tópico é complexo, técnico e vigoroso.13 Pelo menos para o primeiro e segundo casos, é provavelmente impossível dizer com certeza qual está mais próximo do original.

Na realidade dos fatos, se cremos que todos os relatos são apresentações inspiradas da vontade de Deus, a definição de qual está mais próximo das verdadeiras palavras de Jesus se torna desnecessária. Mas tampouco deveríamos passar por alto a diversidade entre os relatos e nos empenhar numa harmonização simplista. Parece que os autores dos evangelhos, sob inspiração, modificariam o seu material para comunicar a vontade de Deus a suas audiências particulares.

Isso parece ser o caso no que concerne ao número três. Há boa razão para crer que a chamada cláusula de exceção, “não sendo por causa de relações sexuais ilícitas” é acrescentada por Mateus e não reflete as palavras originais de Jesus, uma vez que dos quatro escritores que se referem às declarações de Jesus, somente Mateus menciona essa exceção. Aparentemente, Mateus escrevendo sob inspiração, abre uma exceção à negação do divórcio que é particularmente apropriada ao contexto mais fortemente judaico em que escreve;14 somente um quarto de século mais cedo, Paulo tinha aberto uma exceção diversa, adequada a um contexto social diferente. Em certo sentido, Mateus, com as palavras “não sendo por causa de relações sexuais ilícitas”, está adicionando um parêntese dentro dos comentários de Jesus. Ele, logicamente, não contava com marcas de pontuação com que tornar isso claro a nós.

Mas qual é a exceção que Mateus abre? Esta questão é complicada pelo fato de que embora algumas de nossas versões vernáculas rezem, “não sendo por causa de relações sexuais ilícitas”, Mateus não emprega a palavra regular grega para adultério. Em vez disso, emprega o termo porneia, que é freqüentemente traduzido como “fornicação” e é utilizado com uma variedade de sentidos. Geralmente refere-se a qualquer atividade sexual ilícita num sentido muito genérico.   Desafortunadamente, Mateus somente utiliza o termo noutra parte em 15:19, onde é meramente um pecado numa lista de tais, sem contexto que nos possa ajudar.

Esse emprego de porneia tem conduzido a uma série de sugestões quanto ao significado da cláusula excepcional. A posição mais comum é de que Mateus está se referindo ao adultério.15 Mas é também visto como referência a relações sexuais pré-maritais,16 ou casamentos que, para começar, nem eram legais devido a linhas de parentesco muito próximas, com violação de tabus quanto a incesto.17  Outros, de um modo ou de outro, argumentam que Mateus não está na realidade estabelecendo absolutamente uma exceção.18 Conquanto o adultério seja a interpretação mais provável, deve-se admitir que o sentido de porneia nesse contexto não pode ser determinado de modo definido.

O que está claro na passagem de Mateus é que Jesus novamente sustenta o ideal, baseado na Criação, de que não deveria haver divórcio. Mas Mateus, escrevendo sob inspiração, adiciona uma exceção que é provavelmente de sua iniciativa.

Mateus 5:31, 32:

Também foi dito: Aquele que repudiar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio. Eu, porém, vos digo: Qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera; e aquele que casar com a repudiada, comete adultério.

Sendo que esta passagem do Sermão da Montanha é tanto breve quanto intimamente relacionada com a que acabamos de estudar, não precisaremos dedicar-lhe muita atenção. Aqui Jesus diz que um homem que se divorcia de sua mulher, exceto por porneia, torna-a uma adúltera e que um homem que se casar com uma mulher divorciada comete adultério.

A principal dificuldade está na frase “a expõe a tornar-se adúltera”. Alguns sustentam que isso difere das outras passagens do evangelho por situar o adultério como o ponto focal do divórcio, antes que do novo casamento.19 Outros provavelmente estão corretos ao manter que Mateus está presumindo que a mulher divorciada terá que casar-se de novo ou dedicar-se à prostituição, o que em qualquer caso seria adultério.20

Aqui novamente a mesma exceção aparece com a mesma palavra, porneia. Um novo elemento é o ensino de que um homem que se casa com uma mulher divorciada comete adultério. Como em outras passagens dos evangelhos, a união matrimonial é vista como se estendendo para além do divórcio.

Lucas 16:18:

Quem repudiar sua mulher e casar com outra, comete adultério; e aquele que casa com a mulher repudiada pelo marido, também comete adultério.

A passagem final parece ser paralela à anterior, mas com alguma variação.21 Omite a referência a fazer a mulher divorciada uma adúltera e declara que um homem que se divorcia de sua esposa e se casa com outra comete adultério. A questão anterior já foi vista em Marcos 10 e a posterior em Mateus 5. Muitos vêem isto como a forma mais original da declaração de Jesus.

Conclusões

Indubitavelmente esta breve pesquisa do material neotestamentário a respeito do divórcio é complexo e confuso. O que tudo isso representa quanto à nossa atitude para com o divórcio e nossas ações com respeito a ele? Eu tentativamente formulei as seguintes conclusões:

Primeiro, nenhuma “política sobre divórcio” para a igreja pode ser obtida a partir do material do Novo Testamento. Nunca o Novo Testamento explicitamente faz ligação entre divórcio e disciplina eclesiástica. Os autores neotestamentários não intencionaram estabelecer uma política eclesiástica; antes, relacionaram os ensinos de Jesus com várias situações que suas comunidades deparavam. Em resultado disso, há certo grau de diversidade de detalhe entre autores do Novo Testamento, o que torna impossível a harmonização numa única política “bíblica”. Adicionalmente, os problemas interpretativos nessas passagens são demasiado grandes para permitir-nos derivar uma política detalhada a partir delas. Há simplesmente demasiados aspectos que não conhecemos. Por exemplo, não podermos estar absolutamente certos de que Paulo permite o novo casamento após o divórcio por ele permitido, ou precisamente que sentido é atribuído a porneia em Mateus. Caso devêssemos ter uma política bíblica precisa, certamente necessitaríamos ter respostas definidas para ambas as questões. Isso não significa que a igreja não deva ter uma política, nem que não possa ser informada pelo Novo Testamento. Mas quando formulamos uma política teremos que aceitar a responsabilidade por seu conteúdo. Não podemos simplesmente chamá-la de a política bíblica.

Em segundo lugar, conquanto o material não nos propicie uma política, é-nos de utilidade. Não somente estabelece algumas coisas que estão bem claras, a despeito de dificuldades interpretativas, mas também nos concede exemplos de arrazoado moral inspirado com relação à questão do divórcio. Cuidadosa atenção ao material é, portanto, de auxílio em nos permitir como indivíduos e como igreja refletir sobre essa questão. Não precisamos nos desesperar simplesmente por existirem elementos difíceis no texto. Podemos nos concentrar no que está claro. O reconhecimento de que não podemos extrair políticas claras a partir do material não o transforma em irrelevante.

Em terceiro lugar, o Novo Testamento apresenta um pressuposto claro e coerente 22 contra o divórcio. Todos os escritores do Novo Testamento concordam em que Jesus se opunha ao divórcio e que o ideal de Deus é que não deveria existir tal. Deus tenciona que o casamento seja permanente. Ele próprio une maridos e esposas, e os seres humanos são convocados a preservar essa obra e não desfazê-la. Este é o cerne básico do ensinamento de Jesus a respeito do divórcio. O divórcio interfere na vontade de Deus e perde de vista o seu ideal.

Esta é em grande medida a conclusão mais importante do material neotestamentário sobre o divórcio, e confronta-se com muito do que se passa em nossa cultura contemporânea. Numa época em que “até que a morte os separe” freqüentemente significa “na medida em que tudo corra bem”, o Novo Testamento nos desafia com a vontade de Deus a partir da Criação pela permanência do matrimônio. Toda tentativa de nossa parte em procurar bases que possamos empregar para justificar o divórcio perde de vista o ponto básico. A meta é o não-divórcio. Quando verdadeiramente damos ouvidos ao Novo Testamento, somos responsáveis por fazer tudo quanto pudermos para alcançar essa meta.

Em quarto lugar, no Novo Testamento, particularmente em Paulo e Mateus, há um reconhecimento de que num mundo menos do que ideal os seres humanos nem sempre corresponderão ao ideal divino. Na realidade, às vezes esse ideal pode conflitar-se com outros valores e ideais, tais como o ideal de que Deus nos chamou para a paz. O Novo Testamento expressa um realismo gracioso que tenta relacionar a vontade de Deus com as circunstâncias reais que às vezes estão abaixo do ideal. Isso se faz mais evidente em Paulo.

A exceção de Paulo no caso dos casamentos mistos baseia-se num princípio–Deus nos tem chamado para a paz. Isso pareceria implicar em que Paulo crê que outros valores, adicionalmente ao ideal de Deus para a permanência do matrimônio, são importantes e devem, pelo menos em alguns casos, ser levados em consideração. Como declara Furnish a respeito de Paulo: “Ele parecia não dispor-se a sancionar a idéia de que o matrimônio é um fim em si e que precisa ser mantido a qualquer custo. Aqui Paulo demonstra sensibilidade quanto à qualidade de um relacionamento matrimonial, sobre que raramente lhe é atribuído crédito”.23

Assim, Paulo nos apresenta um exemplo inspirado de arrazoado moral, com base em princípio, com respeito a uma situação matrimonial específica. Em vez de legalisticamente tomar a exceção de Paulo (ou mesmo de Mateus) como a única exceção possível, pareceria mais em sintonia com o espírito do material neotestamentário dedicar-se ao mesmo tipo de arrazoado moral com respeito a casos específicos, indagando, por exemplo, o que estaria mais em harmonia com o ideal divino para o matrimônio e seu chamamento à paz, e reconhecer que o forte pressuposto contra o divórcio requereria uma carga de prova bastante forte a qualquer exceção.

Em quinto lugar, embora nenhuma política possa reivindicar ser a política bíblica, certos requisitos pareceriam necessários para que qualquer igreja seja capaz de reinvindicar que suas decisões a respeito do divórcio estão coerentes com o Novo Testamento. O que tal política precisaria conter?

Ela afirmaria e daria testemunho quanto ao ideal de Deus de que os casamentos sejam permanentes. Qualquer coisa abaixo disso diluiria o ensino claro e coerente do Novo Testamento.

Também tentaria mediar a graça redentora e curadora de Deus nas situações onde esse ideal não fosse atingido. Isso incluiria o mesmo realismo gracioso encontrado no Novo Testamento. Seria suficientemente flexível para permitir arrazoado moral com base em princípios, como encontramos em Paulo, para ser aplicado em casos específicos. Com muita freqüência, numa busca de coerência, a exceção de Mateus tem sido absolutizada numa lei dura e rápida, com pouca, se alguma, referência à metodologia paulina. Conquanto isso possa satisfazer nossa necessidade de ter uma resposta “curta e grossa” para toda situação, causa isso a perda da riqueza do arrazoado moral do Novo Testamento.

Estes critérios não estabelecem uma política, mas ajudam a avaliar qualquer coerência de política com o Novo Testamento.

Finalmente, a afirmação do ideal divino para os casamentos deve ser vista não só na política de divórcio da igreja, mas em seu ministério total. Até mais importante do que como tratamos casos de divórcio e novo casamento é o que fazemos para promover bons matrimônios e ajudar os problemáticos. Mais de uma vez tenho ouvido que seria melhor se os pastores não soubessem como aconselhar, uma vez que gastariam seu tempo em evangelismo, não com quem enfrenta dificuldades matrimoniais. Conquanto reconheçamos a importância do evangelismo, se as igrejas adventistas têm a afirmar o ideal de Deus quanto ao casamento, devem reconhecer que sua missão evangelística inclui ajudar a estabelecer a apoiar bons matrimônios. Somente ao assumirmos essa tarefa mais seriamente reduziremos os trágicos dilemas que tantas vezes defrontamos, e marcharemos para mais perto do ideal divino.

Notas e Referências
1.   Este estudo de modo algum será completo ou esgotará o assunto. Livros inteiros têm sido escritos sobre o divórcio e o Novo Testamento. Estes incluem o de Myrna e Robert Kysar, The Asundered: Biblical Teachings on Divorce and Remarriage (Atlanta: John Knox, 1978), e Donald W. Shaner, A Christian View of Divorce According to the Teachings of the New Testament (Leiden: Brill, 1969).

2.   Assim Victor Paul Furnish, The Moral Teachings of Paul (Nashville: Abingdon, 1979), p. 42, realça que o tema de I Cor. 7 não é divórcio, mas sexo, e que Paulo não está aconselhando pessoas cujos casamentos estão em perigo de desfazer-se, mas àqueles que se indagam se o casamento é uma condição legítima para o cristão.

3.   É geralmente admitido que quando Paulo distingue entre o que diz e a ordem do Senhor, este último ponto refere-se a uma declaração específica de Jesus durante o seu ministério terreno.

4.   Ver Kysar, p. 67.

5.   Para um aprofundamento dessas possibilidades, ver Furnish, pp. 41-46. Apoio para a posição de que Paulo tem um caso específico em mente é dado por Jerome Murphy-O’Connor, O. P., “The Divorced Woman in I Cor. 7:10-11”, Journal of Biblical Literature 100 (1981): 601-606.

6.  Sakae Kubo, “I Cor. 7:16: Optimistic or Pessimistic?” New Testament Studies 24:539-544. Kubo baseia o seu argumento no contexto, demonstrando que a estrutura da passagem é como segue: os versos 12 e 13 dão instrução aos que desejam romper com suas esposas descrentes, enquanto o verso 14 mostra por que devem permanecer (tais matrimônios são legítimos); o verso 15ab instrui aqueles cujos parceiros desejam partir, e os versos 15c-16 oferecem razões por que o cristão deveria deixar o cônjuge descrente ir-se (Deus nos chamou para a paz e não se pode ter certeza de converter o cônjuge).

7.   Ver David Dungan, The Sayings of Jesus in the Churches of Paul (Philadelphia: Fortress, 1971), pp. 97, 98. Kysar, pp. 74-79, diz que Paulo não permitia o novo casamento, mas é possível que o faria, se entendesse que a parousia não estava iminente.

8.  Ver William Orr e James Arthur Walther, I Corinthians, “Anchor Bible” (Garden City, N.Y.: Doubleday, 1976), p. 214, e Hans Conzelmann, I Corinthians: A Commentary, trad. James W. Leitch, ed. George W. MacRae, “Hermeneia” (Philadelphia: Fortress, 1975), p. 123.

9.   Kishmah, “Gittin” 9:10. Joseph A. Fitzmeyer., S. J., “The Matthean Divorce Texts and Some New Palestinian Evidence”, in To Advance the Gospel: New Testament Studies (New York: Crossroad, 1981), pp. 79-111 argumenta que a evidência do Qumran [N.T.: referência aos “Rolos do Mar Morto”] revela que os essênios proibiam toda forma de divórcio e que isso propicia um contexto palestino verossímil para a originalidade da pergunta dos fariseus tal como registrada em Marcos.

10.  Conquanto haja apoio de pequena monta em termos de manuscritos [“evidência textual”--N.T.] para a omissão de “contra ela”, as palavras são certamente parte do texto original de Marcos.

11. Bruce Malina, The New Testament World: Insights from Cultural Anthropology (Atlanta: John Knox, 1981), p. 120 acha isso tão curioso que chama a declaração uma “parábola” que não está se referindo a divórcio em absoluto, uma vez que não faz sentido algum como se apresenta. Ele assinala que já nos tempos vétero-testamentários o adultério havia sido empregado como metáfora para a idolatria. Mas também parece possivel que Jesus está criando novas definições para comunicar uma mensagem nova e radical.

12. Ver Eduard Schweizer. The Good News According to Mark, trad. Donald Madvig (Atlanta: John Knox, 1976), p. 203.

13. Há, pelo menos, quatro posições: (1) Marcos apresenta esse relato mais original por toda a extensão, (2) o relato de Marcos é primário, mas Mateus preserva alguns elementos que são mais originais, (3) o relato de Mateus é mais original por toda sua extensão e oferece evidência da prioridade cronológica do evangelho de Mateus, e (4) ambos os relatos foram tão fortemente “editados” que é impossível dizer como seria o texto original. A maioria dos comenttaristas reflete (1) ou (2). Para a posição (3) ver Dungan, pp. 102-113, e para a (4) ver Bruce Vawter, C. M., “Divorce and the New Testament”, Catholic Biblical Quarterly 39 (1977): 528-532, . 532.

14. Conquanto a posição tradicional de que Mateus foi escrito por cristãos judeus seja agora questionada por alguns, não pode haver dúvida de que há algum tipo de “conexão judaica” neste evangelho que se aproxima mais do que em outros dos sinóticos. A prática judaica requeria divórcio em casos de adultério e certas outras irregularidades sexuais.

15. Ver, por exemplo, Kysar, pp.l; 48, 49, e W. F. Albright e C. S. Mann, Matthew, “Anchor Bible” (Garden City, N.Y.: Doubleday, 1971), p. 65.

16. Ver M. Geldard, “Jesus’ Teaching on Divorce: Thoughts on the Meaning of  Porneia in Matthew 5:32 and 19:9”, Churchman 92 (1978): 134-143.

17. Ver Fitzmeyer, passim, especialmente pp. 94-97.

18. Ver Vawter, pp. 531, 535, e Dungan, p. 113ss.

19. Kysar, p. 50.

20. Albright e Mann, p. 65.

21. Assim Lucas 16:18 e Mateus 5:31,32 são muito possivelmente extraídos da fonte de ensino hipotética chamada Q. Aqui novamente as opiniões se dividem quanto a qual evangelho preserva a declaração Q mais precisamente.

22. Emprego o termo “pressuposto” no sentido em que é emitido por James F. Childress, “Scripture and Christian Ethics: Some Reflections on the Role of Scripture in Moral Deliberation and Justification”, Interpretation 34 (1980): 371-380.

23.  Furnish, p. 45.

[Traduzido de Spectrum, Vol. 13, no. 4].

*John C. Brunt era da Escola de Teologia do Walla Walla College ao escrever este artigo.

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